sexta-feira, janeiro 13, 2006

·۰•● A EDUCAÇÃO VALE A PENA ? ●•۰


Se eu posso dizer que acredito em alguma coisa, é na educação. Somente através da educação podemos imaginar um mundo diferente, um mundo onde a eqüidade e a isonomia sejam concretas, e não meramente teóricas como ainda o é. Digo isso pelo fato de que a Constituição Federal do Brasil prevê que todos são iguais (princípio da isonomia) e serão igualados levando-se em conta a suas desigualdades (princípio da eqüidade), mas isso não ocorre na prática, principalmente no tocante à educação. Lamentavelmente.

A minha crença na educação supera, e muito, a minha crença na justiça ou na democracia. Ambas podem ser corrompidas facilmente. Educando se constroi alicerces sólidos, os quais são praticamente invioláveis.

Há muito tempo venho pensando sobre questões de educação: sua importância, sua força, suas limitações, o poder das novas tecnologias para a melhoria das práticas educacionais, a junção entre essas tecnologias e os diversos grupos de educandos, as distições didáticas entre os níveis educaionais, entre outros temas tão comumente tratados por educadores de renome nacional e internacional. Não tenho pretenção nenhuma de debater idéias aqui, principalmente as minhas. Tenho apenas o interesse de dialogar (?) com estes educadores e dividir algumas experiências, anseios e divagações sobre esse universo riquíssimo da educação.

Minha formação acadêmica é o Direito, porém, desde que descobri a pesquisa e o poder - e o prazer - da transmissão de idéias, ainda nos meus primeiros anos na academia, aflorou em mim a necessidade de contribuir com alguma coisa para a formação intelectual das pessoas. Não sei se obtenho o mesmo êxito de um profissional de formação educacional, porém, acredito que consigo, ao menos, manter um bom diálogo - uma quase cumplicidade intelectual - com meus interlocutores.

Até a segunda semana de janeiro de 2006 eu só havia tido contato com o pessoal da academia, ou seja, de graduados em diante. Nunca havia tomado uma classe de colegiais para dividir algum conhecimento. Duvidada que conseguiria; acreditava que eu me sentiria totalmente deslocada, eis que só havia feito coisa semelhante com os meus pares. No entanto, eu havia esquecido-me de um detalhe importantíssimo, de uma caracterista nata dos educadores, e que, por presente, eu a tenho: ambientização!

Evidente que ambientização é importante; aliás, é imprescindível. Ambientar-se é não criar raizes com apenas um grupo de interlocutores, é conseguir falar e ser entendidos por todos. Somente nesse dia, no dia que eu falei pela primeira vez para uma classe de mais de quartenta adolescentes, que eu pude perceber a importância da ambientalização.

Por natureza, eu tenho a alma jovem. Eu gosto de estar entre eles. Eles entendem com uma facilidade gigantesca, são criativos, são participativos, são espertos, são curiosos do que existe para aprender, desde que o educador esteja somente um degrau acima deles. Eles apreciam a cumplicidade com o professor, apreciam a relação próxima, a identidade. Se o professor cria uma identidade com seus alunos, acredito, consegue qualquer feito deles de bom grado.

Comecei a pensar muito sobre isso, rememorar minha vida na escola, como eu via meus professores de colégio e o motivo pelo qual alguns eram simplesmente odiados. Alguns deles me vieram tão facilmente a memória... Sempre aqueles de cara fechada, que falavam uma linguagem que não entendíamos, que viam defeitos em tudo que fazíamos, que simplesmente pareciam desconhecer o que era ser adolescente. Hoje eu gostaria de vê-los novamente para perguntar-lhes os motivos que os empurraram para o magistério de colegiais. Sinceramente, gostaria de ouví-los. Sim, não pode ser por amor a nobre arte de ensinar! Ensinar não é só chegar na frente de uma sala repleta de pessoas absurdamente diferentes em personalidade e despencar qualquer conteúdo. O conteúdo é deveras importante! Mas, conteúdo sem forma não serve para nada, não atinge o objetivo que é o aluno aprender. Da mesma maneira que forma se conteúdo também é imprestável.

Hodiernamente, se o professor ensinar seu aluno como no tempo dos meus pais (eventualmente, até como os meus próprios professores faziam, e os da graduação ainda hoje solidificam os meus eqüívicos educacionais), ele vai buscar alguma coisa mais "atrativa" para aprender. É patente que a Rede Globo, a internet (digo, a internet sem controle, grifa-se!), e até a "rua", dominam sutilmente a arte de ensinar. Porém, retomo a idéia, é apenas a forma, o conteúdo não poderia ser pior! A globalização (querendo ou não eu tenho que falar dela) diminuiu as distâncias entre emissor-informação-interlecutor, refimou a forma de apresentação da informação tornando-a mais palatável. E são os jovens e adolescentes que mais são atraídos pela sedução da forma, pois ainda não dispõem de mecanismos internos de seleção dos conteúdos.

Nesse cenário entra o professor. Ah, o pobre professor! Aquele que recebe salários baixos, que vai lecionar desmotivado, que não consegue conter sua sala... Parece-me uma bola de neve desgovernada! A situação torna-se mais grave a cada dia, pois nenhuma das preciosíssimas informações que ele tem a fornecer aos seus alunos vai ser aproveitada. Porque? Oras, ele não tem um "apelo", ele não se ambientiza, sua mensagem não chega ao seu interlocutor que muitas vezes já foi seduzido pela informação equivocada, maliciosa e prejudicial vinda de outras "fontes de aprendigem"!

Não estou querendo com esse texto ensinar nenhum professor, nem teria "know how" para tanto. É somente a minha humilde impressão da situação. A impressão de quem já foi e é aluna (e pretendo sê-lo por toda vida!) e que está sonhando em vir a ser uma boa professora.

Somente para contextualiza a situação que eu usei como base para toda essa conversa, eu tive a honra de passar um pouco mais de duas horas com quarenta e cinco (creio ser esse o número) pessoas, entre quinze e dezesseis anos, da mais alta educação, com um senso de grupo incrível, com uma capacidade para aprender e para dividir o que pensam com relação ao que se está passando a eles, enfim, quarenta e cinco jovenzinhos com um futuro brilhante! Esse grupo eu conheci pelo fato de ter realizado um trabalho voluntário, pois eles são treinandos da Guarda Mirim de Piracicaba. São adolescentes tidos como carentes, de familias com baixa renda familiar, que devem já ter enfrentado uma série de problemas de toda natureza, mas que são o sonho de qualquer professor, eu garanto!

Fui convocada para tratar de um tema que praticamente era desconhecido para mim: "Relacionamento Familiar e Participação no Orçamento da Família". Estudei, preparei a aula, preparei o material (Apostila e Questionário) e elaborei uma apresentação em PowerPoint, para enriquecer a aula, usando elementos conhecidos para eles (como desenhos animados) para tentar chegar mais próximo deles. Acho que consegui. Foi uma das experiências mais importantes que eu já tive. Valeu pessoal!

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